Sete minutos. Foi o tempo que os funcionários chineses do Consulado Geral da China de São Paulo levaram para me atender desde que adentrei o local. Tinha fila, senão teriam sido três minutos.
Em meio a um caos aéreo no Brasil, a companhia aérea chinesa fez bonito. Nem um minuto de atraso na decolagem, nem no Brasil nem na cidade onde fiz a conexão para Pequim. Este bom começo me dizia que as coisas funcionariam mais ou menos como previsto sem grandes surpresas, dada a minha relativa familiaridade com a cultura chinesa. Seriam quinze dias passando por três províncias.
Chegando no aeroporto de Pequim resolvi tomar um café para encarar a minha primeira reunião com ânimo de quem tivesse feito apenas uma ponte aérea. Estrategicamente situado em frente a um dos portões de desembarque internacional encontro um Star Bucks. Descobri durante essa viagem que o efeito Western na China tem aumentado consideravelmente mudanças nos milenares hábitos de consumo por lá. Dado o calor insuportável que fazia pedi um café gelado e creio que foi o pior café gelado que já tomei na minha vida. Pensei em reclamar com a atendente, mas pensei que se fosse chá e o chá não estivesse bom talvez valesse a pena pedir uma troca, mas com o café não valeria a pena e deixei pra lá. Nada como relevar as diferenças culturais...
Um dia, já em Xangai, peguei um táxi retornando de uma reunião. Era um táxi pirata e o motorista não falava inglês, mas viemos conversando durante todo o trajeto, que durou uns quinze minutos até o meu hotel. Só não tenho certeza sobre qual era o tema da conversa, mas foi uma conversa agradável e animada, me recordo bem.
Visitando fábricas por lá tive algumas visões um tanto quanto surreais. Vi centenas de costureiras trabalhando debruçadas em bancadas situadas em galpões gigantescos, sem bebedouros ou banheiros nas proximidades, trabalhando sem qualquer conforto. Do lado de fora dos galpões havia outras centenas de bicicletas estacionadas e algumas crianças brincando. Achei aquilo estranho, perguntei a minha guia por quê havia crianças por ali. Ela me explicou que as mães que não tinham com quem deixar suas crianças tinham de levá-las ao trabalho e deixá-las brincando sozinhas do lado de fora até o final do expediente (uma média de 12 horas de jornada de trabalho em média).
No geral o esforço pela integração com outras culturas, as gentilezas para ganhar a atenção do estrangeiro, sobretudo se este é um potencial cliente, é gigantesco. Perdi a conta do número de almoços para os quais fui convidada. A cada novo prato me era explicada a origem e as tradições relacionadas a este. Aprendi também que não se fala de política, de direitos trabalhistas, de cotas de nascimentos, de miséria ou salários. Os chineses não gostam e não falam sobre temas tidos como delicados com estrangeiros, são muito reservados.
Como as regras de trânsito ainda não estão completamente consolidadas na China, estacionar em calçadas, furar cruzamentos, carros, pedestres e bicicletas disputando o mesmo espaço, são cenas corriqueiras.
É preciso discrição para se vestir. Roupas estampadas, muito coloridas ou justas ou decotadas são hábitos ocidentais que ainda chocam os chineses, que não possuem discrição alguma em olhar fixo aos estrangeiros nas ruas. As mulheres quase não usam adereços, maquiagem, são muito discretas. Enquanto que nos países latinos ser bronzeado é o máximo, na China ser bronzeado é querer ficar parecido com um filipino ou com um indiano. A beleza feminina está na brancura da pele, quanto mais branca mais bonita para os padrões de beleza locais.
Descobri enquanto estava lá que a concorrência pode ser a salvação num país absolutamente competitivo e empreendedor. A concorrência em praticamente todos os setores leva o povo a ser extremamente criativo. O que falta é o acesso a informação, isso sim. A mídia ainda é muito ´cuidadosa´ e a maior parte das notícias globalizadas ainda vem da Ásia.
Uma grande surpresa que tive foi ter conseguido agendar uma reunião com representantes do Ministério do Comércio em Pequim, onde fui extremamente bem recebida. Fiquei imaginando: possivelmente uma simples mortal como eu jamais seria tão bem recebida por um órgão público no Brasil sem uma petição oficial ou sem uma comitiva de políticos poliglotas ignorantes e pior ainda sem um passaporte diplomático. Pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença...
Em meio a tantas pontes, túneis, viadutos gigantes, edifícios colados um no outro de múltiplos andares de alturas inimagináveis por quem nunca os tenha visto antes, o sentido coletivo ainda predomina. É como se o que importasse fossem os resultados finais de qualquer trabalho ou empreendimento e não o empreendimento individual.
Esta não é uma demonstração de apologia à China. É uma expressão de simpatia somente.
Todo o esforço de integração cultural é válido: enquanto consumimos as cafeteiras chinesas eles aprendem a preparar o nosso café.
Claudia
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
sábado, 15 de dezembro de 2007
ALGUMAS DEFINIÇÕES MASCULINAS
Nada como ouvir da fonte as verdades que muitos homens têm pouca ou nenhuma coragem de dizer a uma mulher. A fonte será preservada por motivos de compatibilidade ideológica.
Segue abaixo a coletânea de máximas nada cartesianas:
´Homem que é homem não tem amiga. Se disser que tem amiga é por quê tem ou teve um caso com ela´.
Ao ouvir essa fiquei atônita, pálida, muda. Estatisticamente é verdade...
´Os piores inimigos do homem são a cerveja e a mulher´.
Tive de questionar o por quê. Ele me explicou que quando o homem toma muita cerveja ele certamente perde os limites e geralmente tem alguma mulher por perto para botar lenha na fogueira. O que dizer, bom, estatisticamente também acho que é verdade.
´Homem não casa com mulher independente´.
Essa eu nem precisei questionar. Estatisticamente é verdade absoluta.
´A mulher não deve fazer o que tem vontade mas deve dizer o que tem vontade´.
Também dessa vez eu tive de silenciar. É como dizia o meu amado escritor Gabriel García Márquez: ´ninguém vai se recordar de ti por conta de teus pensamentos secretos´. Mais uma vez fui obrigada a concordar.
´Homem não gosta de mulher que reclama´.
Nem questionei. Estatisticamente ´mega-blaster´verdadeira a afirmação. A recíproca é verdadeira, pensei.
´Homem não gosta de mulher perua, mas também não gosta de mulher relaxada´.
Ufa !
´Homem não gosta do vestido da mulher ou da nova cor do cabelo dela, ele gosta e elogia o corpo´.
Nossa, como que eu nunca tinha reparado nisso ?
´Homens quando se reúnem só têm três assuntos: mulher, futebol, mulher´.
Aqui eu também tive de me calar pois não fico prestando atenção na conversa dos outros, é falta de educação. De qualquer forma, não fiquei surpresa em saber.
´Homem que convida a mulher para tomar um ´drink´ geralmente já passou da idade do Mickey.
Absoluta, inquestionável e estatisticamente verdadeiro !
Graças a minhas pesquisas homus-focus-populis estou construindo um modelo estatístico de estudo da mente masculina que seja passível de análise linear e racional não-reptiliana.
Estou cadastrando candidatos para as entrevistas. De preferência que gostem muito de cerveja.
Claudinh@
Segue abaixo a coletânea de máximas nada cartesianas:
´Homem que é homem não tem amiga. Se disser que tem amiga é por quê tem ou teve um caso com ela´.
Ao ouvir essa fiquei atônita, pálida, muda. Estatisticamente é verdade...
´Os piores inimigos do homem são a cerveja e a mulher´.
Tive de questionar o por quê. Ele me explicou que quando o homem toma muita cerveja ele certamente perde os limites e geralmente tem alguma mulher por perto para botar lenha na fogueira. O que dizer, bom, estatisticamente também acho que é verdade.
´Homem não casa com mulher independente´.
Essa eu nem precisei questionar. Estatisticamente é verdade absoluta.
´A mulher não deve fazer o que tem vontade mas deve dizer o que tem vontade´.
Também dessa vez eu tive de silenciar. É como dizia o meu amado escritor Gabriel García Márquez: ´ninguém vai se recordar de ti por conta de teus pensamentos secretos´. Mais uma vez fui obrigada a concordar.
´Homem não gosta de mulher que reclama´.
Nem questionei. Estatisticamente ´mega-blaster´verdadeira a afirmação. A recíproca é verdadeira, pensei.
´Homem não gosta de mulher perua, mas também não gosta de mulher relaxada´.
Ufa !
´Homem não gosta do vestido da mulher ou da nova cor do cabelo dela, ele gosta e elogia o corpo´.
Nossa, como que eu nunca tinha reparado nisso ?
´Homens quando se reúnem só têm três assuntos: mulher, futebol, mulher´.
Aqui eu também tive de me calar pois não fico prestando atenção na conversa dos outros, é falta de educação. De qualquer forma, não fiquei surpresa em saber.
´Homem que convida a mulher para tomar um ´drink´ geralmente já passou da idade do Mickey.
Absoluta, inquestionável e estatisticamente verdadeiro !
Graças a minhas pesquisas homus-focus-populis estou construindo um modelo estatístico de estudo da mente masculina que seja passível de análise linear e racional não-reptiliana.
Estou cadastrando candidatos para as entrevistas. De preferência que gostem muito de cerveja.
Claudinh@
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
BLACK BOX
Esta semana brinquei de forca. Foi a única brincadeira que eu lembrei para poder ensinar inglês para a minha nova aluna, que tem apenas 9 anos. Ela foi tão gentil e educada ao perguntar se não tinha outro jeito de aprender inglês a não ser usando o livro que não resisti:
- Ah, você tem razão, esse livro é muito chato mesmo. Vamos brincar do quê ?
Descobri que não sabia mais brincar de forca... Desenhei a bonequinha inteira e depois fui fazendo um x nas partes do corpo da bonequinha a medida em que minha aluna não acertava as letras da palavra que eu tinha imaginado para o jogo. Menos mal que ela gostou da minha boneca de lacinho. Já comecei a pesquisar se existe mangá em inglês, pedi ao especialista da família para fazê-lo para mim, um nobre cavaleiro estilo Cosplay Naruto de 14 anos.
Outro dia tive de fazer a seguinte pergunta para um outro aluno, este já num nível intermediário do idioma, um precoce menino de 12 anos (claro tudo pelo método moderno de aquisição de idiomas que a escola usa):
- Quando você morrer, onde você desejará que seja o seu túmulo e que palavras você gostaria que estivessem escritas na sua lápide ?
O garoto olhou para mim com os olhos arregalados por trás do seu óculos de intelectual sorriu talvez querendo dizer algo como ‘você não pode estar falando sério’. Eu poderia ter pulado a pergunta, mas quando percebi já era tarde demais. O garoto sorriu e disse:
- Mas eu só tenho 12 anos !
Tive de sair dessa. Improvisações a parte, acabei ajudando o garoto a construir a frase que ficou mais ou menos assim:
- Aqui jaz um cara legal. Divirtam-se a aproveitem a vida também.
Ainda bem que isso aconteceu bem no final da aula ! Ufa ...
Para quem nunca planejou ensinar, tenho gostado da experiência, embora tem dias que eu tenha vontade de dizer que a consulta como psicóloga custa dez vezes mais que a aula de inglês.
Sem problemas, vou recomendar a escola que faça um bom convênio com um consultório de psicologia ou então vou fazer pós-graduação em psicologia cognitiva e me tornar uma professora de inglês-terapeuta.
O mais maravilhoso é perceber que a diversidade humana é que faz da vida algo tão fantástico !
Como dizem os americanos, life is a black box. A vida é uma caixinha de supresas mesmo!
- Ah, você tem razão, esse livro é muito chato mesmo. Vamos brincar do quê ?
Descobri que não sabia mais brincar de forca... Desenhei a bonequinha inteira e depois fui fazendo um x nas partes do corpo da bonequinha a medida em que minha aluna não acertava as letras da palavra que eu tinha imaginado para o jogo. Menos mal que ela gostou da minha boneca de lacinho. Já comecei a pesquisar se existe mangá em inglês, pedi ao especialista da família para fazê-lo para mim, um nobre cavaleiro estilo Cosplay Naruto de 14 anos.
Outro dia tive de fazer a seguinte pergunta para um outro aluno, este já num nível intermediário do idioma, um precoce menino de 12 anos (claro tudo pelo método moderno de aquisição de idiomas que a escola usa):
- Quando você morrer, onde você desejará que seja o seu túmulo e que palavras você gostaria que estivessem escritas na sua lápide ?
O garoto olhou para mim com os olhos arregalados por trás do seu óculos de intelectual sorriu talvez querendo dizer algo como ‘você não pode estar falando sério’. Eu poderia ter pulado a pergunta, mas quando percebi já era tarde demais. O garoto sorriu e disse:
- Mas eu só tenho 12 anos !
Tive de sair dessa. Improvisações a parte, acabei ajudando o garoto a construir a frase que ficou mais ou menos assim:
- Aqui jaz um cara legal. Divirtam-se a aproveitem a vida também.
Ainda bem que isso aconteceu bem no final da aula ! Ufa ...
Para quem nunca planejou ensinar, tenho gostado da experiência, embora tem dias que eu tenha vontade de dizer que a consulta como psicóloga custa dez vezes mais que a aula de inglês.
Sem problemas, vou recomendar a escola que faça um bom convênio com um consultório de psicologia ou então vou fazer pós-graduação em psicologia cognitiva e me tornar uma professora de inglês-terapeuta.
O mais maravilhoso é perceber que a diversidade humana é que faz da vida algo tão fantástico !
Como dizem os americanos, life is a black box. A vida é uma caixinha de supresas mesmo!
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
O REI E O ANEL
Era uma vez um rei que administrava seu reino com extremo zelo e que para tanto contava com bons conselheiros e até mesmo com um sábio em sua corte, além de fiéis cavaleiros bem preparados para um combate inesperado.
Numa manhã o rei recebeu de presente de um visitante nobre um belo rubi e mandou chamar o joalheiro da corte para pedir a este que criasse um anel, que seria o seu anel da sorte, pois assim o aconselhara o visitante que lhe presenteara a pedra.
O rei pediu ao joalheiro que criasse um pequeno compartimento no anel que deveria estar exatamente debaixo do rubi, onde um pequeno pedaço de papel pudesse ser armazenado. Como o compartimento era muito pequeno, qualquer coisa que se escrevesse naquele pequeno pedaço de papel não poderia ultrapassar quatro palavras.
Quando o anel ficou pronto o rei mandou chamar o sábio e lhe explicou sobre o anel. O rei então pediu ao sábio que lhe escrevesse as quatro palavras que lhe pudessem ser úteis num momento de extrema necessidade ou desespero.
O sábio assentiu e pensou por um instante. Chovia há dias e o sábio disse ao rei que assim que a chuva passasse ele entregaria ao rei as quatro palavras já escritas no pequeno papel tendo-o colocado no compartimento do anel da sorte do rei.
Dito isto, o rei concordou e entregou o anel ao sábio.
Passados dois dias e também as chuvas que irrompiam no reino há quase uma semana, o sábio devolveu o anel ao rei e disse:
- Majestade: abra o compartimento do anel somente num momento de extrema necessidade.
O rei concordou e colocou o anel no dedo. Passadas algumas semanas, o reino foi invadido por bárbaros e estes queriam a cabeça do rei para poderem tomar posse do reino. O rei percebeu que seu exército era muito mais fraco que o do inimigo e que fôra pego de surpresa. Era a ele que eles queriam.
Não lhe restava outra alternativa senão fugir em seu cavalo. Sem alarde pediu a seu servo imediato que preparasse seu melhor cavalo e partiu sem rumo. Os bárbaros o perseguiam e o rei se sentia acuado e em desespero.
O rei tinha decidido poupar seus soldados uma vez que o exército inimigo era duas vezes maior que o seu próprio exército e sabendo ele que era a sua cabeça que os bárbaros queriam, decidiu partir só para poupar vidas e afastar a atenção dos bárbaros para uma região vizinha a do seu reinado.
Foi então que o rei lembrou-se do anel. Abriu o compartimento e pegou o pequeno pedaço de papel onde estava escrito:
- ‘Isso vai passar.’
O rei sentiu-se de alguma forma aliviado, enxergou logo adiante uma clareira, entrou nela, se escondeu, até que os bárbaros, já o tendo perdido de vista desistiram e partiram.
Já seguro, o rei retornou ao povoado onde todos o aguardavam ansiosos, uma vez que não acreditavam que ele ainda pudesse estar vivo. Quando o viram retornar são e salvo, houve festa e exultação geral entre todos. O rei sentia-se orgulhoso de si mesmo e em êxtase por estar vivo e por ter retornado ao seu reino que permanecera intacto.
Neste momento, o rei recordou-se das palavras escritas no pequeno pedaço de papel contido no anel pelo sábio e o mandou chamar. Ele agradeceu o sábio pelas palavras escritas. O sábio pediu ao rei que lesse novamente o papel.
O rei questionou pois ele estava tão feliz, tão alegre, não havia motivo algum para desespero naquele momento e nenhuma vida tinha sido perdida na quase batalha. O rei estava orgulhoso de si mesmo e alegre.
O sábio repete:
- Majestade: lhe peço que leia novamente o pequeno papel.
O rei olha com atenção ao semblante sério do sábio e abre o compartimento do anel e lê:
- Isso também vai passar...
(este texto é uma adaptação livre de uma parábola sufi)
Numa manhã o rei recebeu de presente de um visitante nobre um belo rubi e mandou chamar o joalheiro da corte para pedir a este que criasse um anel, que seria o seu anel da sorte, pois assim o aconselhara o visitante que lhe presenteara a pedra.
O rei pediu ao joalheiro que criasse um pequeno compartimento no anel que deveria estar exatamente debaixo do rubi, onde um pequeno pedaço de papel pudesse ser armazenado. Como o compartimento era muito pequeno, qualquer coisa que se escrevesse naquele pequeno pedaço de papel não poderia ultrapassar quatro palavras.
Quando o anel ficou pronto o rei mandou chamar o sábio e lhe explicou sobre o anel. O rei então pediu ao sábio que lhe escrevesse as quatro palavras que lhe pudessem ser úteis num momento de extrema necessidade ou desespero.
O sábio assentiu e pensou por um instante. Chovia há dias e o sábio disse ao rei que assim que a chuva passasse ele entregaria ao rei as quatro palavras já escritas no pequeno papel tendo-o colocado no compartimento do anel da sorte do rei.
Dito isto, o rei concordou e entregou o anel ao sábio.
Passados dois dias e também as chuvas que irrompiam no reino há quase uma semana, o sábio devolveu o anel ao rei e disse:
- Majestade: abra o compartimento do anel somente num momento de extrema necessidade.
O rei concordou e colocou o anel no dedo. Passadas algumas semanas, o reino foi invadido por bárbaros e estes queriam a cabeça do rei para poderem tomar posse do reino. O rei percebeu que seu exército era muito mais fraco que o do inimigo e que fôra pego de surpresa. Era a ele que eles queriam.
Não lhe restava outra alternativa senão fugir em seu cavalo. Sem alarde pediu a seu servo imediato que preparasse seu melhor cavalo e partiu sem rumo. Os bárbaros o perseguiam e o rei se sentia acuado e em desespero.
O rei tinha decidido poupar seus soldados uma vez que o exército inimigo era duas vezes maior que o seu próprio exército e sabendo ele que era a sua cabeça que os bárbaros queriam, decidiu partir só para poupar vidas e afastar a atenção dos bárbaros para uma região vizinha a do seu reinado.
Foi então que o rei lembrou-se do anel. Abriu o compartimento e pegou o pequeno pedaço de papel onde estava escrito:
- ‘Isso vai passar.’
O rei sentiu-se de alguma forma aliviado, enxergou logo adiante uma clareira, entrou nela, se escondeu, até que os bárbaros, já o tendo perdido de vista desistiram e partiram.
Já seguro, o rei retornou ao povoado onde todos o aguardavam ansiosos, uma vez que não acreditavam que ele ainda pudesse estar vivo. Quando o viram retornar são e salvo, houve festa e exultação geral entre todos. O rei sentia-se orgulhoso de si mesmo e em êxtase por estar vivo e por ter retornado ao seu reino que permanecera intacto.
Neste momento, o rei recordou-se das palavras escritas no pequeno pedaço de papel contido no anel pelo sábio e o mandou chamar. Ele agradeceu o sábio pelas palavras escritas. O sábio pediu ao rei que lesse novamente o papel.
O rei questionou pois ele estava tão feliz, tão alegre, não havia motivo algum para desespero naquele momento e nenhuma vida tinha sido perdida na quase batalha. O rei estava orgulhoso de si mesmo e alegre.
O sábio repete:
- Majestade: lhe peço que leia novamente o pequeno papel.
O rei olha com atenção ao semblante sério do sábio e abre o compartimento do anel e lê:
- Isso também vai passar...
(este texto é uma adaptação livre de uma parábola sufi)
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
MENSAGEM AOS PUBLICITÁRIOS DE PLANTÃO
Hoje vou homenagear os publicitários de plantão, bem como estagiários de jornalismo e de comunicação e empresários da área. Aí vão algumas máximas:
O publicitário pergunta ao empresário:
- Qual a sua verba?
O empresário responde.
O publicitário conclui:
- Sugiro que o senhor adquirira um megafone de última geração. É bem eficiente para este tipo de verba.
Outra. "O Brasil é um país dos que fingem que trabalham e dos que fingem que pagam".
Outra. "Macunaíma é a tradução para o tupiniquim de Maquiavel". Vide o último capítulo da novela Paraíso Tropical semana passada na Globo. O autor da novela e a editora Abril conseguiram antecipar na ficção o que nem a realidade poderia ter criado com tamanha maestria, é por isso que o Brasil ganha tantos prêmios em Cannes, haja inspiração !
Os antigos romanos já ensinavam que o segredo da manipulação da massa é dar pão e circo para o povo. O Senado brasileiro não mede esforços e tem feito sua parte.
O que faltam são padarias.
Claudinh@
O publicitário pergunta ao empresário:
- Qual a sua verba?
O empresário responde.
O publicitário conclui:
- Sugiro que o senhor adquirira um megafone de última geração. É bem eficiente para este tipo de verba.
Outra. "O Brasil é um país dos que fingem que trabalham e dos que fingem que pagam".
Outra. "Macunaíma é a tradução para o tupiniquim de Maquiavel". Vide o último capítulo da novela Paraíso Tropical semana passada na Globo. O autor da novela e a editora Abril conseguiram antecipar na ficção o que nem a realidade poderia ter criado com tamanha maestria, é por isso que o Brasil ganha tantos prêmios em Cannes, haja inspiração !
Os antigos romanos já ensinavam que o segredo da manipulação da massa é dar pão e circo para o povo. O Senado brasileiro não mede esforços e tem feito sua parte.
O que faltam são padarias.
Claudinh@
quinta-feira, 4 de outubro de 2007
UMA IMIGRANTE NÃO EMIGRADA
A ausência por aqui não foi falta de inspiração nem de amor à literatura ou mesmo de fidelidade aos leitores do meu blog. Foi somente um espaço de tempo onde fui à China e voltei a São Paulo.
Dedicarei uma crônica inteira à China, mas não hoje. Calma. Hoje minha inspiração me leva a falar de um tema surgido durante um jantar com um amigo brasileiro na semana passada, que emigrou para o leste europeu há 10 anos, mais especificamente para a Hungria. Aliás, muita gente não sabe que a origem do nome Hungria é fome ! Isso mesmo: fome. Hungary significa fome em inglês.
Ainda não conheço Budapeste, adoraria sentar num restaurante da Paris do Leste e ouvir um grupo de ciganos tocar seus violinos tomando uma taça de ‘Tokay’ ou do tal do ‘Gere’. Este último é o vinho produzido pelo pai daquele famoso ator, Richard Gere, que é húngaro. De todas as formas, dizem que o vinho é excelente.
Eu e meu amigo Gábor conversávamos sobre economia e política brasileiras, ambos contávamos sobre como foram os dois últimos anos de nossas vidas, os dele em Budapeste e os meus aqui em São Paulo.
Acho que acabei fazendo-o de psicólogo. Como bom ouvinte que ele sempre foi, ouviu atentamente aos meus lamentos tupiniquins a despeito da carga tributária, da corrupção brasileira e de minhas próprias mazelas econômicas.
Enquanto conversávamos, ele me contava sobre a vinda de seu pai imigrante ao Brasil por volta de 1950. Anos em que o Brasil ainda era inóspito aos olhos europeus, mas o governo brasileiro nem tanto. O país precisava do conhecimento e da determinação de imigrantes que traziam consigo a dor da fome, da guerra e do frio.
Cheguei à conclusão e disse a meu amigo que tenho me sentido como uma imigrante que nunca emigrou. Tive todos os sintomas do imigrante recém-chegado em minha própria terra nos últimos três anos.
Guardadas as proporções lingüístico-metafóricas, sentir-se num país onde não se consegue entender a política, não se consegue entender os noticiários sobre economia por quê eles parecem tão surreais, não entender por quê as empresas pequenas pagam tantos impostos e as grandes ganham perdões tributários, não entender por quê tentativa de assalto dá cadeia e de suborno dá mídia...
Como imigrante não-emigrada desisti de tentar compreender. Hoje falo mais inglês que português no país de onde não emigrei e onde me condicionei propositalmente a me sentir como uma imigrante: é mais suave a música que se sente que a música que se verbaliza em vocábulos.
É certo que uma vez por ano meu amigo vem matar as saudades do arroz-com-feijão e bife, do Sonho de Valsa (que não é mais o mesmo depois que a Lacta vendeu sua fábrica para a americana Kraft Foods) e da pizza paulistana. Goulash toda semana ninguém merece !
Fiquei com o arroz-com-feijão, fritas e bife acebolado, deixa o goulash para os gringos.
Klaudynha
Dedicarei uma crônica inteira à China, mas não hoje. Calma. Hoje minha inspiração me leva a falar de um tema surgido durante um jantar com um amigo brasileiro na semana passada, que emigrou para o leste europeu há 10 anos, mais especificamente para a Hungria. Aliás, muita gente não sabe que a origem do nome Hungria é fome ! Isso mesmo: fome. Hungary significa fome em inglês.
Ainda não conheço Budapeste, adoraria sentar num restaurante da Paris do Leste e ouvir um grupo de ciganos tocar seus violinos tomando uma taça de ‘Tokay’ ou do tal do ‘Gere’. Este último é o vinho produzido pelo pai daquele famoso ator, Richard Gere, que é húngaro. De todas as formas, dizem que o vinho é excelente.
Eu e meu amigo Gábor conversávamos sobre economia e política brasileiras, ambos contávamos sobre como foram os dois últimos anos de nossas vidas, os dele em Budapeste e os meus aqui em São Paulo.
Acho que acabei fazendo-o de psicólogo. Como bom ouvinte que ele sempre foi, ouviu atentamente aos meus lamentos tupiniquins a despeito da carga tributária, da corrupção brasileira e de minhas próprias mazelas econômicas.
Enquanto conversávamos, ele me contava sobre a vinda de seu pai imigrante ao Brasil por volta de 1950. Anos em que o Brasil ainda era inóspito aos olhos europeus, mas o governo brasileiro nem tanto. O país precisava do conhecimento e da determinação de imigrantes que traziam consigo a dor da fome, da guerra e do frio.
Cheguei à conclusão e disse a meu amigo que tenho me sentido como uma imigrante que nunca emigrou. Tive todos os sintomas do imigrante recém-chegado em minha própria terra nos últimos três anos.
Guardadas as proporções lingüístico-metafóricas, sentir-se num país onde não se consegue entender a política, não se consegue entender os noticiários sobre economia por quê eles parecem tão surreais, não entender por quê as empresas pequenas pagam tantos impostos e as grandes ganham perdões tributários, não entender por quê tentativa de assalto dá cadeia e de suborno dá mídia...
Como imigrante não-emigrada desisti de tentar compreender. Hoje falo mais inglês que português no país de onde não emigrei e onde me condicionei propositalmente a me sentir como uma imigrante: é mais suave a música que se sente que a música que se verbaliza em vocábulos.
É certo que uma vez por ano meu amigo vem matar as saudades do arroz-com-feijão e bife, do Sonho de Valsa (que não é mais o mesmo depois que a Lacta vendeu sua fábrica para a americana Kraft Foods) e da pizza paulistana. Goulash toda semana ninguém merece !
Fiquei com o arroz-com-feijão, fritas e bife acebolado, deixa o goulash para os gringos.
Klaudynha
terça-feira, 7 de agosto de 2007
UMA QUESTÃO DE ESTILO
Em dias de crise existencial quando tudo parece singelo e frágil, heis que surgem as grandes idéias que nos fazem esquecer que uma existência física não passa de uma fração de segundo no tempo universal ou de uma experiência emocional prolongada.
Nada como observar as pessoas para entender um pouquinho os seres mais complexos do universo. Acho até que me divirto com isso.
Outro dia caminhando pela calçada perto de casa comecei a prestar atenção nos transeuntes, sem dar muito na cara claro, porquê ficar encarando os outros é falta de educação. Reparei bem num rapaz que trajava terno e gravata que caminhava como se fosse uma alma desajeitada num corpo estranho que casualmente lhe pertencia.
Fiquei pensativa. Pensei, pensei, pensei. Estranho isso. Tem pessoas que parecem mesmo não pertencer aos seus corpos. É como se o corpo quisesse ir para um lado e a mente para outro igual um cachorrinho schnauzer alemão em seu passeio matinal com o dono pelo parque.
Outra observação que fiz foi com relação a como as pessoas seguem a moda, sobretudo as mulheres. Está na moda usar calça jeans com bolsos baixos, aquelas que deixam a bunda bem amassada. Você entra nas lojas e só encontra calças jeans que deixam a bunda amassada. Para aquelas mulheres que não são muito adeptas do uso diário de caneleiras com pó de ferro para manter tudo em cima, a calça acaba realçando o cair dos anos. Sem trocadilhos. Falando ainda em moda, a mulherada cismou de usar calça fuseau com batas coloridas. A gente caminha na rua nos lugares mais descolados e parece que existe um exército feminino colorido vestido com calças fuseux e batas psicodélicas de ‘viscolycra’. A indústria agradece ao exército pela fidelidade. Entra ano, sai ano, a mulherada está endividada, mas está na moda.
Bom, o que tem a ver o moço desengonçado com as mocinhas neo-psicodélicas? Tudo é uma questão de estilo. Explico-me.
Mais vale o estilo de um engravatado e desengonçado schnauzer alemão do que a falta de estilo de um exército de ‘fuseux’ pretas de salto alto...
Eu ainda prefiro os fofinhos schauzers desgrenhados e estilosos....
Claudinha
Nada como observar as pessoas para entender um pouquinho os seres mais complexos do universo. Acho até que me divirto com isso.
Outro dia caminhando pela calçada perto de casa comecei a prestar atenção nos transeuntes, sem dar muito na cara claro, porquê ficar encarando os outros é falta de educação. Reparei bem num rapaz que trajava terno e gravata que caminhava como se fosse uma alma desajeitada num corpo estranho que casualmente lhe pertencia.
Fiquei pensativa. Pensei, pensei, pensei. Estranho isso. Tem pessoas que parecem mesmo não pertencer aos seus corpos. É como se o corpo quisesse ir para um lado e a mente para outro igual um cachorrinho schnauzer alemão em seu passeio matinal com o dono pelo parque.
Outra observação que fiz foi com relação a como as pessoas seguem a moda, sobretudo as mulheres. Está na moda usar calça jeans com bolsos baixos, aquelas que deixam a bunda bem amassada. Você entra nas lojas e só encontra calças jeans que deixam a bunda amassada. Para aquelas mulheres que não são muito adeptas do uso diário de caneleiras com pó de ferro para manter tudo em cima, a calça acaba realçando o cair dos anos. Sem trocadilhos. Falando ainda em moda, a mulherada cismou de usar calça fuseau com batas coloridas. A gente caminha na rua nos lugares mais descolados e parece que existe um exército feminino colorido vestido com calças fuseux e batas psicodélicas de ‘viscolycra’. A indústria agradece ao exército pela fidelidade. Entra ano, sai ano, a mulherada está endividada, mas está na moda.
Bom, o que tem a ver o moço desengonçado com as mocinhas neo-psicodélicas? Tudo é uma questão de estilo. Explico-me.
Mais vale o estilo de um engravatado e desengonçado schnauzer alemão do que a falta de estilo de um exército de ‘fuseux’ pretas de salto alto...
Eu ainda prefiro os fofinhos schauzers desgrenhados e estilosos....
Claudinha
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